Debate
Deve a OTAN desempenhar um papel importante na segurança energética?
Gal Luft vs. Christophe Paillard
Gal Luft é director executivo do Instituto para a Análise da Segurança Mundial, em Washington D.C..
Christophe Paillard é director da secção de Tendências Tecnológicas e Industriais da Directoria de Assuntos Estratégicos no Ministério da Defesa francês.
                  

Caro Christophe,

Numa altura em que os mercados energéticos estão difíceis, em que a tensão entre produtores e consumidores de energia está a subir e os terroristas atacam instalações energéticas em todo o mundo praticamente todos os dias, a segurança energética encontra-se no topo das preocupações económicas e de segurança da maioria dos países. Tratando-se de um problema mundial, a segurança energética necessita de um tratamento também a nível mundial e, ainda, de uma atenção acrescida da parte de organizações multinacionais como a OTAN. A maioria dos membros da OTAN já começou a aperceber-se deste facto. Porém, até ao momento, a Aliança ainda não foi capaz de formular o seu papel e a sua missão relativamente a este desafio em crescimento. O progresso significativo sobre esta questão é travado pela relutância tradicional dos membros em expandirem as responsabilidades da Aliança, uma preferência pelas forças de mercado enquanto garantia da segurança energética e a preocupação, por parte de alguns, pelo facto de um papel mais relevante da OTAN na segurança energética poder enviar o sinal errado aos produtores de energia, em especial à Rússia, de quem os membros da Aliança se têm vindo a tornar cada vez mais dependentes.

A OTAN tem de se centrar na identificação de acções que produzam uma mais valia e ganhos tangíveis em termos de segurança, ao mesmo tempo que coordena com outras organizações não governamentais a formulação de uma política transatlântica de segurança energética, comum e abrangente. Por outras palavras, a OTAN deveria recorrer tanto ao seu estatuto de organização inter governamental, como à sua vantagem comparativamente a outras organizações internacionais: as suas capacidades militares.

Nos últimos trinta anos, muitos países membros da OTAN têm estado envolvidos em diversas actividades militares cujo objectivo é garantir a segurança do fornecimento de energia. Durante a Guerra Irão-Iraque, os Estados da OTAN forneceram segurança ao tráfego de petroleiros no Golfo Pérsico, tendo muitos deles feito parte da coligação para expulsar o exército iraquiano do Kuwait, em 1991. Com tantos dos principais produtores de gás e petróleo em situações de instabilidade política, existem vários cenários de intervenção militar nos quais a OTAN poderia participar, para garantir a segurança do fornecimento de energia. Países como a Nigéria e o Iraque, cada um deles produzindo acima de dois milhões de barris de petróleo por dia, sofrem hoje em dia conflitos domésticos debilitantes. Outros produtores de energia, como a Arábia Saudita, o Irão, o Chade e o Sudão também enfrentam possíveis tumultos. Os corredores de energia localizados em regiões onde a violência é cada vez maior, como o Médio Oriente, a África e a Ásia Central, também colocam desafios à segurança energética a nível mundial. A perda de alguns milhares de barris por dia durante um período de tempo alargado pode paralisar a economia mundial. Se ocorrerem perturbações nalguns destes locais, pode vir a ser necessário o destacamento rápido de uma força de estabilização multinacional. A Aliança deveria analisar estas ameaças, preparar planos de contingência e treinar e equipar as suas forças em conformidade.

O mesmo é verdade para as vias de comunicações marítimas e pontos de estrangulamento estratégicos na esfera de interesse da OTAN, como o Bósforo, o Estreito de Gibraltar, o Canal de Suez, Bab el Mandeb e o Estreito de Ormuz. Todos estes locais enfrentam ameaças cada vez mais prováveis de atentados terroristas contra o tráfego de petroleiros. O último ponto de estrangulamento está particularmente em risco, à medida que a tensão com o Irão vai subindo, devido às ambições nucleares de Teerão. O Conceito Estratégico da OTAN já inclui elementos para a protecção das linhas de fornecimento vitais. A implementação deste conceito implica uma presença marítima e actividades de fiscalização reforçadas em áreas críticas de trânsito energético. Isto melhoraria não só a segurança energética, como também contribuiria de forma material para a luta contra actividades ilícitas, como a pirataria, o terrorismo marítimo e o contrabando. A Aliança também deveria lidar com a possível ameaça da colocação de minas em pontos de estrangulamento estratégicos. Actualmente, as capacidades de dragagem de minas da OTAN são insuficientes para lidar com a possibilidade de uma operação de minas significativa, da parte quer de actores Estado quer de grupos terroristas.

Considerando o flagelo do terrorismo energético, a melhoria da segurança de infra-estruturas energéticas fundamentais, dentro e fora da Aliança, é outra missão na qual a OTAN poderia desempenhar um papel importante. O Fórum da OTAN sobre Tecnologia de Segurança Energética, uma conferência independente que teve lugar em Praga, em Fevereiro de 2006, realçou algumas das vulnerabilidades do sistema de condutas, refinarias, reactores nucleares, instalações de gás natural liquefeito e redes de electricidade da OTAN. Embora nos últimos cinco anos muito se tenha feito para melhorar a protecção de infra-estruturas energéticas críticas, os sistemas energéticos de ambos os lados do Atlântico ainda são vulneráveis. Os esforços de colaboração com países que não são membros, como os países do Diálogo Mediterrânico, da Iniciativa de Cooperação de Istambul e da Parceria para a Paz constituem uma plataforma para a cooperação em segurança energética com produtores de energia, como o Kazaquistão, o Azerbeijão e o Turquemenistão, assim como com Estados de passagem, como a Geórgia.

Por fim, a Aliança deveria recorrer ao seu papel enquanto fórum para a troca de informação e diálogo em matéria de segurança entre os governos e as forças armadas Aliadas e não Aliadas, para contribuir para o progresso do debate sobre a segurança energética. Por exemplo: as forças armadas da OTAN sofrem com os custos energéticos historicamente elevados, estando, portanto, cada vez mais interessadas em novas tecnologias e medidas eficazes que as ajudem a reduzir os gastos em energia e a libertar recursos para outros fins. A Guerra do Iraque tem demonstrado que o esforço logístico de fornecimento do campo de batalha com combustível é uma vulnerabilidade séria das forças armadas modernas e que a economia de combustível já não é apenas uma virtude mas um imperativo operacional. A OTAN pode promover a troca de informação entre as forças armadas sobre a poupança de petróleo, tecnologias de combustível alternativas e medidas eficazes para a redução da utilização de energia.

Considerando o flagelo do terrorismo energético, a melhoria da segurança de infra-estruturas energéticas fundamentais, dentro e fora da Aliança, é outra missão na qual a OTAN poderia desempenhar um papel importante
O novo ambiente de segurança significa que as intervenções em países produtores de petróleo, as actividades navais ao longo de pontos de estrangulamento estratégicos e as operações de luta contra o terrorismo, contra jihadistas do petróleo que desejem prejudicar a economia mundial ao atacarem as nossas fontes de energia, são praticamente certas. Os problemas que o sistema energético mundial enfrenta não são transitórios e o mais provável é que o desafio à segurança energética venha a aumentar com o tempo. Nos próximos anos, como afirmou o Senador Richard Lugar, presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros do Senado norte-americano, na véspera da Cimeira de Riga, "a origem de conflito armado mais provável no teatro de operações europeu e nas regiões circundantes será a falta e a manipulação de energia". É prudente presumir que os membros da OTAN vão estar cada vez mais empenhados em missões directa ou indirectamente associadas à segurança energética. Se a segurança energética é, de facto, um "assunto relevante para a OTAN", como afirmou recentemente o Secretário-geral da OTAN, Jaap de Hoop Scheffer, está na altura de a Aliança passar da retórica para a acção, começando por recorrer às suas ferramentas mais importantes: as suas capacidades marítimas, terrestres e de informação.

Mas mesmo na ausência de uma crise importante, a OTAN tem um papel a desempenhar na segurança energética. A Aliança deveria envidar todos os esforços para promover o debate entre o sector privado, as ONG e os governos sobre a melhor forma de aumentar a estabilidade nos mercados energéticos internacionais e de mitigar as tensões entre produtores e consumidores. Deveria trabalhar para criar uma solidariedade política contra perturbações deliberadas do fornecimento de energia, como foi o caso do corte do fornecimento de gás por parte da Rússia à Ucrânia, em 2005, não devendo deixar de exercer a sua influência política e capacidade de dissuasão contra a utilização da arma da energia por parte dos produtores. Esse poder e essa influência deveriam ser utilizados para proteger a soberania e os direitos de produtores vulneráveis e de Estados de passagem. Apesar de o grau de envolvimento da OTAN em todas estas matérias ser um assunto digno de debate, a Aliança já não pode dar-se ao luxo de se manter à margem daquele que cada vez mais aparenta ser o grande jogo do século XXI.

Com os meus melhores cumprimentos,
Gal


Caro Gal,

Reconhecer que a segurança energética é fundamental é demasiado simples. Saber quem é responsável por esse trabalho é tarefa muito mais complicada.

Nos últimos quinze anos, a OTAN tem mais ou menos tentado tornar-se uma organização de segurança mundial, apesar de ainda se concentrar fundamentalmente na defesa dos interesses dos Estados Unidos e dos seus parceiros europeus.

Pelo contrário, uma estratégia puramente europeia para a segurança energética tem de começar com uma observação simples: a auto-suficiência europeia em termos energéticos é um objectivo impossível de alcançar, mesmo a muito longo prazo. O consumo energético da Europa irá continuar a aumentar anualmente cerca de 1 a 2% nos próximos vinte anos, o que constitui um aumento modesto quando comparado com a procura da Ásia, mas ainda é suficiente para se encarar com preocupação quaisquer acontecimentos de curto e longo prazo no domínio do fornecimento de energia.

Por essa razão, a segurança energética tem-se tornado um assunto cada vez mais importante para a Europa. Alguns produtores de energia, em particular a Rússia e o Irão, têm demonstrado uma tendência para recorrerem ao gás e ao petróleo como forma de pressão política. Os debates sobre a segurança energética têm tido lugar na OTAN como uma possível nova esfera de actividade da Aliança. Porém, os debates ainda estão no início e persiste a questão de saber o que uma organização como a OTAN pode fazer.

Alguns membros como a França podem preferir um papel mais importante para a União Europeia.

Para a França, a questão é de saber se um "clube energético" da OTAN seria apenas uma ferramenta conveniente para manter a influência americana na Europa. Acreditamos que a má experiência no Iraque, as incertezas em torno de um novo começo para a indústria do petróleo iraquiana, a possível emergência de uma rivalidade comercial reforçada entre as empresas energéticas europeias e americanas e a necessidade de proteger as tecnologias e industrias energéticas fundamentais da Europa não deve modificar o papel essencial da OTAN de manter elos de defesa transatlânticos fortes e de proteger os seus membros de ataques militares.

O Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte identifica um ataque contra um membro como um ataque contra todos. Este artigo foi redigido para impedir a coerção de um membro da OTAN por parte de um Estado não membro. Porém, ao contrário dos comentários recentes do Senador norte-americano Richard Lugar, existe uma diferença entre um Aliado ser confrontado com um bloqueio militar, ou outro tipo de demonstração militar nas suas fronteiras, e ser confrontado com um corte energético devido a desacordos comerciais, mesmo se as consequências para o país envolvido forem dramáticas.

Na minha opinião, seria razoável perguntar, em primeiro lugar, o que significa a segurança energética para os vinte e sete Estados membros da União Europeia e, em segundo lugar, quais as capacidades que já tem à sua disposição para responder a um ataque directo a interesses europeus nas regiões produtoras de energia, antes de se procurar atribuir à OTAN um novo papel.

É muito mais urgente para a Europa munir-se com os instrumentos económicos, políticos e militares que lhe permitirão defender os seus interesses energéticos do que envolver-se num debate complicado sobre o potencial da OTAN para desempenhar um papel na segurança energética.

De facto, o debate sobre o papel da OTAN é mais ilustrativo do modo como os países europeus receiam outro conflito entre si e os russos sobre a questão energética, do que uma forma realista de proteger o fornecimento de energia a longo prazo. Alguns governos europeus acreditam que uma cooperação estreita com a Rússia em matéria de energia não conduzirá à segurança energética. É por esse motivo que a Polónia sugeriu a possibilidade da assinatura de um tratado de energia da União Europeia ou, se esse processo falhasse, de fortalecer o papel da Aliança na segurança energética.

A segurança energética europeia não pode ser refém do risco do conflito aberto que a associação com a OTAN traria. Em última instância, a União Europeia é a melhor organização para o papel
É verdade que alguns assuntos de interesse para a OTAN estão directamente associados a questões energéticas. O terrorismo marítimo tem demonstrado ser uma ameaça extraordinária a nível mundial, sendo os alvos embarcações civis e militares nas áreas de operação da OTAN. Esse risco é muitas vezes acrescido quando criminosos, muitas vezes em associação com terroristas, recorrem a embarcações e vias marítimas. Além disso, os terroristas poderiam causar vítimas civis em grande número se recorressem a armas de destruição maciça. Os esforços da OTAN para impedir esse tipo de ataques poderiam tornar-se uma prioridade importante, obrigando a Aliança a expandir as suas fronteiras marítimas.

Porém, quando esse debate tem lugar na OTAN, envia um sinal errado aos governos dos países produtores de gás e petróleo. Por exemplo, são muitas as pessoas na Europa e no Médio Oriente que acreditam que os Estados Unidos invadiram o Iraque em parte para garantir o acesso ao seu petróleo. A realização de debates que mostrem que os Aliados possam estar a contemplar acções militares para assegurar o fluxo de gás e de petróleo só encorajaria a ideia de que o Ocidente pretende explorar a região por causa dos seus recursos.

Nós, em França, reiteramos a importância das forças de mercado, da independência dos produtores e dos fornecedores e da necessidade de proteger e manter a infra-estrutura energética. Contudo, é possível que venha a verificar-se uma forte oposição popular a qualquer esforço da OTAN no sentido de garantir a segurança de infra-estruturas energéticas em países da Ásia Central e do Médio Oriente, se vierem a ocorrer interrupções energéticas nesses territórios.

Ir em auxílio de um membro cujas fontes energéticas pudessem estar ameaçadas recorrendo à cláusula de defesa mútua disposta no Artigo 5º poderia conduzir a uma nova avaliação radical da doutrina de defesa da OTAN. A ameaça da invocação do Artigo 5º foi concebida para garantir a defesa mútua, mas, quando é utilizada, também implica a ameaça de guerra. A segurança energética europeia não pode ser refém do risco do conflito aberto que a associação com a OTAN traria. Em última instância, a União Europeia é a melhor organização para o papel.

Com os meus melhores cumprimentos,
Christophe


Caro Christophe,

Enquanto pensava na minha resposta à sua carta, chegaram notícias perturbadoras de mais uma tentativa por parte da Rússia de cortar o fornecimento de petróleo à Bielorússia e daí a outros países europeus. Esta foi a última de uma série de manipulações energéticas que incluem um corte de gás à Ucrânia, explosões misteriosas no gasoduto para a Geórgia e pressão notória sobre outros países. São sérias chamadas de atenção para o facto de a segurança energética constituir um assunto urgente que já não pode ser confinado ao reino da teoria e dos clubes de debates.

Independentemente do que a União Europeia decidir fazer, enquanto instituição militar, a OTAN é o único organismo multinacional que pode contribuir com músculo para o desafio à segurança energética
O Christophe parece apostar na capacidade da União Europeia de "responder a um ataque directo a interesses europeus [.] antes de se procurar atribuir à OTAN um novo papel". Mas a julgar pela resposta dócil da União Europeia aos desafios recentes, questiono a sua capacidade de impedir os fornecedores de utilizarem a energia enquanto arma. Independentemente do que a União Europeia decidir fazer, enquanto instituição militar, a OTAN é o único organismo multinacional que pode contribuir com músculo para o desafio à segurança energética. Esse músculo faz falta porque, como o demonstraram os acontecimentos dos últimos cinco anos, os fornecedores de energia não se impressionam com uma retórica hesitante. Se queremos impedir os cortes nos fornecimentos, a extorsão e a intimidação, então está na altura de uma abordagem mais musculada.

Limitar o envolvimento da OTAN no debate sobre segurança energética porque "envia o sinal errado aos governos dos países produtores de gás e petróleo", ou porque alimentaria a percepção falaciosa de que o Ocidente pretende explorar os recursos dos fornecedores, ignora a realidade de que são precisamente esse fornecedores não provocados que estão, cada vez mais, a tornar legítima a utilização da energia como uma arma política. Temos de encarar esta realidade de frente e em vez de adoptar uma atitude passiva quando o nosso modo de vida fortemente baseado na energia é ameaçado.

Em virtude da robustez da sua indústria de energia nuclear, a França não é tão dependente do gás da Rússia. É, portanto, compreensível que a França seja o membro da OTAN menos entusiasta quando se trata de activismo em matéria de segurança energética no quadro da Aliança. Mas, para outros países europeus, a energia importada é uma questão de sobrevivência nacional e as suas preocupações devem ser consideradas pela Aliança como um todo. É para isso que servem os Aliados.

Por fim, seria suicídio iludirmo-nos com a ideia de que as forças de mercado podem resolver o problema. O mercado energético é tudo menos um mercado livre. A grande maioria das reservas de gás e de petróleo estão nas mãos de governos que têm pouca consideração pelos princípios do mercado livre. Os membros da OPEC manipulam regularmente os preços e as conversações sobre a criação de um cartel do gás são cada vez mais frequentes. Embora os produtores estejam claramente a tentar consolidar o seu poder colectivo em nosso detrimento, nós ainda não reagimos.

Nada disto significa que deveríamos recorrer automaticamente à invocação do Artigo 5º, ou considerar o uso da força. Mas não desenvolvermos as capacidades básicas que poderão, um dia, permitir-nos tomar outras atitudes depois de a diplomacia e as forças de mercado terem sido esgotadas só vai convidar a mais do mesmo. Também pode deixar muitos de entre nós às escuras.

Com os meus melhores cumprimentos,
Gal


Caro Gal,

Em primeiro lugar, deixe-me agradecer-lhe ter regressado ao assunto da Rússia. Concordo consigo quando fala da importância da segurança do fornecimento de gás e petróleo proveniente da Rússia para a Bielorússia e dali para outros territórios. Porém, discordo totalmente com a sua interpretação desta crise mais recente. Penso que o corte recente e temporário do fornecimento de petróleo à Bielorússia nada tem a ver com o nosso debate sobre a segurança energética.

Andemos um pouco para trás. Como todos sabemos, a Federação Russa e a Bielorússia resolveram uma disputa energética que ameaçava perturbar o fornecimento de petróleo ao nível regional para a Polónia e para outros países da Europa central. Anteriormente, a Bielorússia tinha celebrado um acordo com a Rússia que poderia eventualmente vir a unir os dois países numa federação; acredita-se que o Presidente Lukashenko ambicionava um cargo elevado nessa federação.

É escusado dizer que o Presidente Putin não vê com bons olhos as ambições de Lukashenko, o que explica em parte a razão pela qual a relação entre a Rússia e a Bielorússia azedou. Resumidamente, tratava-se de uma luta política que só marginalmente estava ligada às complexidades da segurança energética. O antagonismo entre Putin e Lukashenko e as complexidades da exportação de gás e petróleo russos para a Europa são assuntos distintos que não devem ser confundidos.

A energia é um assunto mais do foro da economia nacional do que da política mundial. Os Estados membros da OTAN escolhem modos diferentes para assegurar a sua segurança energética.
Permita-me regressar à nossa principal preocupação. Sinceramente, parece-me que há aqui dois pesos e duas medidas. Quando põe em causa a capacidade da União Europeia de responder a uma possível ameaça vinda do exterior, evita mencionar se os países europeus teriam algo a dizer em questões de segurança energética unicamente americanas. Acredita mesmo que a cláusula de defesa mútua disposta do Artigo 5º da OTAN seria invocada se os Estados Unidos acreditassem que a sua segurança energética estava em causa?

Duvido muito que as preocupações europeias sobre as emissões de gás de estufa, mudança climatérica e segurança ambiental estejam no topo da ordem de trabalhos da Casa Branca. A segurança ambiental não é uma anedota: tem um impacto nas relações entre a Europa e África, nos níveis da emigração para a Europa, e por aí em diante. Infelizmente, não existe consenso entre a Europa e os Estados Unidos em assuntos que são vitais para a segurança energética da Europa. Devido a essa lamentável, mas inegável, bifurcação de interesses, a União Europeia, e não a OTAN, deve assumir a liderança relativamente à segurança energética europeia.

Por fim, a energia é um assunto mais do foro da economia nacional do que da política mundial. O exemplo que deu sobre a indústria nuclear francesa é interessante. Nos anos sessenta e setenta, a França teve a vontade política de implementar essa solução para as suas necessidades em matéria de energia. Todos os Estados membros da OTAN escolheram caminhos diferentes para garantir a sua segurança energética e não foi necessário recorrer à OTAN para o fazer.

Tal como o Gal, compreendo as preocupações dos nossos amigos da Europa central e oriental no que diz respeito à sua segurança energética. Apesar de a Rússia ser um problema para os países bálticos, eles já compreenderam que, em última instância, a segurança energética vem do investimento e da diversificação dos fornecimentos. Na passada Primavera, os lituanos acordaram abrir uma nova central nuclear conjunta com a Letónia, a Estónia e a Polónia. Constituirá uma alternativa real ao gás e ao petróleo russos e será muito mais prática do que uma hipotética protecção por parte da OTAN, pelo menos no que diz respeito ao fornecimento de energia. O investimento e a diversificação são as verdadeiras soluções para a segurança energética europeia e conduzir-nos-ão à luz.

Com os meus melhores cumprimentos,
Christophe


Caro Christophe,

Deixe-me abordar a sua principal preocupação: o fosso entre os Estados Unidos e a Europa em assuntos energéticos e a questão de saber se os Europeus terão algo a dizer "em questões de segurança energética unicamente americanas". Se existem dois pesos e duas medidas, não é na questão que identificou. Apesar de a maioria das necessidades norte-americanas em termos de electricidade serem satisfeitas por fontes domésticas, o sector norte-americano de transportes está muito dependente do petróleo estrangeiro, tal como na Europa. Porém, é sobre os Estados Unidos que recai a maior parte da responsabilidade na protecção das linhas de fornecimento de energia e das regiões de produção, cada vez mais ameaçadas, ascendendo o preço dessa tarefa ao valor de cinquenta a sessenta biliões de dólares ao ano, num ano sem guerra. Por outras palavras, os Estados Unidos fornecem serviços de protecção de energia ao resto do mundo, incluindo a Europa.

Lidar com a energia como um assunto puramente económico é um vestígio do passado. A realidade que enfrentamos hoje em dia obriga-nos a adoptar um novo conjunto de instrumentos, devendo a força militar ser um deles
Relativamente ao ambiente, a sua sugestão de que os Estados Unidos não partilham as preocupações da União Europeia é um conto popular que não corresponde à realidade. Verdade seja dita, entre 2000 e 2004, o crescimento das emissões de CO2 nos Estados Unidos foi de 2,1%, enquanto que na Europa foi de 4,5%. É óbvio que os Estados Unidos devem estar a fazer alguma coisa bem.

Mais seriamente, o Christophe parece querer reduzir o debate a uma disputa entre os Estados Unidos e a Europa. Contudo, muitos países europeus, a Polónia, por exemplo, vem-me à cabeça, parecem encarar a segurança energética como uma questão transatlântica que merece o envolvimento da OTAN. Afinal, a convergência dos nossos interesses em segurança energética é simplesmente avassaladora. O seu infeliz e, do meu ponto de vista mal informado, anátema à "ordem de trabalhos da Casa Branca" é irrelevante para o que está aqui em causa.

Sejamos francos: centrarmo-nos nas diferenças transatlânticas não irá ajudar a nossa causa, em particular se essas diferenças foram insignificantes quando comparadas com os interesses que partilhamos. Tanto a economia americana como europeia são fortemente dependentes do fornecimento ininterrupto de energia a um preço acessível, e continuarão a sê-lo. Contudo, o fornecimento de energia está cada vez mais em risco.

Gostaria de poder concordar com o seu ponto de vista quando diz que "a energia é um assunto mais do foro da economia nacional do que da política mundial". Infelizmente, em anos recentes tem havido muitas chamadas de atenção para o facto de não ser esse o caso. Os terroristas jihadistas determinados em derrubar as economias ocidentais estão de olhos postos no nosso fornecimento de energia. Também somos vítimas de ameaças, intimidação e extorsão por parte de grandes produtores de energia.

Por seu lado, os consumidores deixam cada vez mais que as considerações energéticas influenciem a sua política de negócios estrangeiros. A razão pela qual o Ocidente é incapaz de refrear as ambições nucleares do Irão ou de impedir o genocídio no Sudão tem muito a ver com a dependência crescente da China relativamente à energia proveniente desses países. Lidar com a energia como um assunto puramente económico é um vestígio do passado. A realidade que enfrentamos hoje em dia obriga-nos a adoptar um novo conjunto de instrumentos, devendo a força militar ser um deles. É óbvio que devemos deixar trabalhar as forças do mercado, aumentar a cooperação internacional em matéria de energia, diversificar as fontes e investir em reservas estratégicas, mas negligenciar o desenvolvimento da nossa capacidade de intervenção militar quando tudo o resto falhar seria uma irresponsabilidade.

Com os meus melhores cumprimentos,
Gal


Caro Gal,

Embora seja verdade que os Estados Unidos protegem vastas rotas marítimas, permita-me que lhe recorde que alguns Estados europeus, incluindo a França e o Reino Unido, estão a fazer parte do trabalho. Quando o USS Cole foi bombardeado no Iémen, a 12 de Outubro de 2000, a Força Naval Francesa do Oceano Índico, que protege a rota marítima de Bal El Mandeb, foi a primeira a chegar ao local para ajudar e salvar os nossos Aliados.

É verdade que a energia é um problema mundial, mas, uma vez mais, as soluções são locais ou regionais. Vejamos o exemplo do gás. Por enquanto, oitenta e oito por cento do gás russo é exportado para a Europa, bem como sessenta por cento da sua produção de petróleo. Trinta por cento do consumo europeu de gás é importado da Rússia, assim como quinze por cento do seu consumo de petróleo.

Embora seja verdade que os Estados Unidos protegem vastas rotas marítimas, permita-me que lhe recorde que alguns Estados europeus, incluindo a França e o Reino Unido, estão a fazer parte do trabalho
Pelo contrário, o mercado de gás americano é praticamente independente do mundo exterior. Os Estados Unidos importam oitenta por cento das suas necessidades de gás do Canadá e de Trindade. Assim, os problemas energéticos europeus não têm nada a ver com as questões energéticas americanas. Por isso, não compreendo o motivo pelo qual a OTAN deveria ser um mensageiro entre a Europa e a Rússia, quando os problemas de fornecimento russo provêm não de uma má vontade política, mas antes de uma falta de investimento russo em níveis mais elevados de produção.

Deixe-me desenvolver este último ponto. Os três principais campos de gás da Sibéria Ocidental vão muito provavelmente ficar sem gás antes de 2012 porque o regresso do velho regime está a transformar o sector energético num novo Gosplan, em que decisões sérias são muitas vezes adiadas. Não se trata de um problema de segurança transatlântico, mas sim de um problema político e económico interno russo. A nossa tarefa é ajudar, o melhor que pudermos, os últimos elementos de democracia que ainda persistem, o que se apresenta como um papel mais adequado à União Europeia do que à OTAN.

Mencionou a Polónia e, de facto, os polacos estão muito preocupados com a sua soberania quando se trata de assuntos de segurança energética. Ao referir-se a um proposto gasoduto de gás natural que ligasse a Rússia e a Alemanha, Radek Sikorski, o ministro da defesa polaco, disso mesmo, em Maio passado, que "a Polónia tem uma sensibilidade particular a corredores e a negócios decididos por cima das nossas cabeças [sic]. Essa era a tradição de Locarno, a tradição de Molotov-Ribbentrop. Isso era no século XX. Não queremos que se repita". Embora compreenda a seriedade da situação para a Polónia, este tipo de reacção exagerada não ajuda.

O principal desejo da Polónia, à semelhança das preocupações francesas e alemãs, é comprar gás a um preço razoável. Para isso, temos de convencer a Rússia a concordar em desenvolver os seus sectores de gás e de petróleo. É por esse motivo que apoio as recentes tentativas de Angela Merkel de convencer o Presidente Putin a assinar um acordo estratégico sobre a segurança dos fornecimentos energéticos.

A China é uma questão diferente. Espero que não esteja a pensar utilizar a OTAN para impedir a emergência da China como uma das duas super-potências económicas. Não é nem necessário, nem desejável.

Para concluir, permita-me que lhe relembre que nem todas as críticas à posição dos Estados Unidos no seio da OTAN devem ser consideradas como um ataque à relação transatlântica. Como outros já disseram antes de mim, um bom amigo diz-nos quando estamos errados.

Com os meus melhores cumprimentos,
Christophe