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Debate
Deverá o Médio Oriente ser a nova frente principal da OTAN?
     Will Marshal  VERSUS   Peter Rudolf



Will Marshall é director do Progressive Policy Institute em Washington DC.



Peter Rudolf é um analista do Stiftung Wissenschaft und Politik baseado em Berlim especialista em relações transatlânticas.

                 sim

não            

Caro Peter

Desde os ataques terroristas de 11/9, a opinião pública nos Estados Unidos tem-se consolidado em torno da teoria de que o Grande Médio Oriente é no século XXI o que a Europa foi no século XX - o principal cadinho de conflitos.

É claro que há outros pontos quentes; a Coreia do Norte é especialmente preocupante. Mas o Grande Médio Oriente, estendendo-se de Marrocos ao Paquistão, é sem sombra de dúvida o ponto de origem mais provável dos perigos que mais receamos actualmente: o terrorismo niilista, as armas de destruição maciça, os ditadores párias e os Estados enfraquecidos.

Esta opinião parece estar a firmar-se na Europa. Em Fevereiro, na Conferência sobre Política de Segurança de Munique, por exemplo, Joschka Fischer descreveu o Médio Oriente como "o epicentro da maior ameaça à nossa segurança regional e global no princípio deste século: o destruidor terrorismo da jihad com a sua ideologia totalitária".

A OTAN deveria dedicar-se à defesa dos nossos interesses de segurança comuns contra o novo totalitarismo em desenvolvimento no Grande Médio Oriente

Se os americanos e europeus estão realmente a aproximar-se duma definição comum das novas ameaças que enfrentamos, então a OTAN, a pedra angular institucional da Aliança transatlântica, deveria reorientar-se para fazer face a estas ameaças.

Qual é a alternativa? A Aliança tem estado indecisa desde a desintegração da União Soviética. O alargamento da OTAN deu a impressão duma actividade objectiva, mas teve mais a ver com a consolidação dos ganhos do Ocidente com a Guerra Fria do que com a definição duma nova missão para a Aliança. A questão mantém-se, para que serve a OTAN? Especialmente depois do desentendimento acerca do Iraque, os parceiros transatlânticos deverão acordar numa resposta, e depressa, caso contrário acabarão inexoravelmente por se afastar seguindo caminhos divergentes.

Acho que a resposta é bastante simples: a OTAN deveria dedicar-se à defesa dos nossos interesses de segurança e valores liberais comuns contra o novo totalitarismo em desenvolvimento no Grande Médio Oriente. Este desafio não é exclusivamente militar. A longo prazo, o êxito exige a mudança das condições - forte repressão política, estagnação económica e receios difusos de decadência cultural - que alimentam o fanatismo e a violência na região. Nos Estados Unidos, tanto o Presidente Bush como o Senador John Kerry, o candidato democrata à Casa Branca, apelaram a uma vasta estratégia de modernização da região, através da expansão do comércio, do aumento da ajuda ligada a reformas da governação e dum forte apoio aos direitos do homem, ao primado do direito e a grupos cívicos independentes. Fischer chama a esta estratégia "globalização positiva", mas corresponde à mesma coisa.

Mas se o poder militar por si próprio não pode derrotar a nova ameaça totalitária, também não é provável a vitória sem uma ameaça credível de emprego da força. Afinal, a Al Qaeda já atacou três Aliados da OTAN: a Espanha e a Turquia, além dos Estados Unidos. Para defender o "território transatlântico" contra novos ataques terroristas, a OTAN tem que desenvolver a capacidade de detectar e desfazer as células terroristas e de impedir que os terroristas disponham de abrigos seguros. É esta sem dúvida a justificação para a intervenção sem precedentes da OTAN no longínquo Afeganistão.

De facto, ao organizar a Força Internacional de Ajuda à Segurança (ISAF) de 6.500 militares em Cabul, a OTAN já transpôs o Rubicão e iniciou a sua reorientação estratégica no sentido do Grande Médio Oriente. O desafio agora é a OTAN tornar-se um construtor da paz mais agressivo e eficaz. Isto significa sair da capital, desarmar os senhores da guerra e as milícias e pô-las sob a autoridade do governo central, e cooperar mais estreitamente com os 10.000 americanos que estão a combater o que resta dos Taliban e da Al Qaeda ao longo da fronteira com o Paquistão.

Assim como os Estados Unidos não podem fracassar no Iraque, a OTAN não pode fracassar no Afeganistão. É essencial que os nossos parceiros europeus reforcem a ISAF com mais tropas e equipamento e comecem a estender a segurança e a estabilidade a outras partes do país, especialmente às agitadas regiões Pathan, no Sul. De facto, o Afeganistão poderá ser o catalisador de que a Europa necessita para acelerar o desenvolvimento da sua nova Força de Destacamento Rápido, bem como da capacidade de transporte e logística necessária para projectar poder a grande distância.

Uma OTAN melhor centrada e equipada também poderá reforçar uma diplomacia internacional mais vigorosa que vise impedir a difusão de armas de destruição maciça (ADM) na região. A Europa teria conseguido que o Irão autorizasse a inspecção internacional dos seus programas nucleares sem uma demonstração nítida do poder militar dos EUA à sua porta? Não parece provável. O mesmo acontece quanto à decisão da Líbia de renunciar às ADM e ao tardio desfazer do bazar nuclear de A. Q. Khan no Paquistão. Mas além de melhorar a sua aptidão para projectar força na região, a OTAN deveria procurar mecanismos com os países da região segundo o modelo do programa da Parceria para a Paz com os antigos países do bloco soviético, visando fomentar a cooperação, a transparência e medidas para o estabelecimento de confiança em matéria de segurança em toda a região. E, sim, a OTAN deveria desenvolver as capacidades que lhe permitam atacar preventivamente instalações nucleares em países que não respeitem as normas internacionais de não proliferação.

Além disso, não é inconcebível que a OTAN possa desempenhar um papel mais activo no refrear de conflitos e no reforço de acordos políticos na região. Por exemplo, poderia reforçar os esforços para pôr fim às lutas civis no Sudão colocando forças para evitar o massacre dos não árabes no Sul. Poderia dar garantias de segurança para facilitar uma solução negociada entre dois Estados para o conflito israelo-palestiniano. Um novo Estado palestiniano precisaria de ajudar a desarmar o Hamas e os outros grupos terroristas, enquanto Israel necessitaria de ter a garantia de não dever suportar sozinho a responsabilidade de proteger os seus cidadãos. E a abertura do Secretário-Geral da OTAN Jaap de Hoop Scheffer a uma missão da OTAN no Iraque é de bom agouro quer para o apoio a um novo governo iraquiano quer para a reconstrução da unidade da Aliança.

Obviamente, tudo isto exigiria mudanças espectaculares nos orçamentos militares europeus, na estrutura de tomada de decisões duma OTAN alargada e, acima de tudo, na perspectiva dos próprios europeus. Enquanto a segurança durante a Guerra Fria significava a dissuasão dum ataque soviético à Europa Ocidental, a segurança na era do terrorismo e da jihad exige uma abordagem mais activa e preventiva. Estão os europeus dispostos a trocar os riscos actuais pela segurança futura? Não sei, mas espero que ponderem a lição crucial que os americanos aprenderam com o 11/9: ignorando as ameaças crescentes não se fica mais seguro.

Seu,
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Will


Caro Will,

Posso parecer um "realista" fora de moda mas estou convencido de que a gestão das relações entre as grandes potências continua a ser o desafio internacional fundamental. Se existe uma região em que é possível que um conflito entre grandes potências se transforme numa guerra (nuclear) é a Ásia Oriental. O desenvolvimento da China decerto apresentará problemas difíceis tanto para os decisores políticos americanos como para os seus homólogos europeus. Não quero minimizar a importância do facto de o terrorismo islâmico constituir a mais grave ameaça transnacional. Apenas quero contestar a pretensão de que o Grande Médio Oriente pode ser para o século XXI o que a Europa e a Ásia foram para o século XX.

Por outro lado, sou muito influenciado pelo facto de as relações internacionais liberais pensarem que a OTAN se desintegrará inevitavelmente como instituição de segurança a não ser que tenha uma missão abrangente em termos de tratamento das ameaças comuns. Tal evolução, que você parece prever, implicaria uma mudança profunda nas prioridades estratégicas dos membros fundamentais da OTAN. Uma mudança tão espectacular das coligações e ideias internas que preferem a continuação da OTAN como uma instituição de segurança com várias funções apenas seria possível certamente se o custo de pertencer à OTAN se tornasse inaceitavelmente elevado. Talvez nos devêssemos preocupar mais com um alargamento excessivo da Aliança do que com a ausência duma missão unificadora e duma nova frente principal.

É verdade que há uma ameaça comum. Contudo, pondo de lado a retórica política, é uma ameaça de muito maior importância para os Estados Unidos como "potência do Médio Oriente" do que para a Europa. Dito isto, a ameaça representada pelo terrorismo islâmico não é, como salientou, um desafio exclusivamente militar. De facto, eu afirmaria que não é primariamente um desafio militar. A verdadeira questão parece-me ser: que contribuição funcional pode dar a OTAN para uma estratégia alargada para fazer face às ameaças dos terroristas islâmicos transnacionais e aos riscos de segurança representados pela proliferação das armas nucleares? Uma estratégia tão alargada deveria evitar agrupar os diversos desafios e riscos numa ameaça monolítica, como parece ser o caso no actual debate sobre a política externa nos EUA.

A focagem no Grande Médio Oriente não deve ser vista como uma terapia para a Aliança. Na ausência duma análise sensata do envolvimento no Grande Médio Oriente - uma análise baseada nas prioridades estratégicas e que tenha em conta os recursos e capacidades limitados - a longa lista das coisas em que a Aliança se poderia ver envolvida poderia facilmente levar a um exagero. A OTAN continua a ser uma instituição importante demais para a sua existência ser posta em risco por um envolvimento excessivamente ambicioso e dispendioso no Médio Oriente.

Deveríamos preocupar-nos mais com um alargamento excessivo da Aliança do que com a ausência duma missão unificadora e duma nova frente principal

Quase se tornou um lugar comum dizer que o Ocidente não pode permitir-se fracassar no Iraque e no Afeganistão. Mas deve ter-se cuidado ao pôr em causa o prestígio e a credibilidade da OTAN. O que significa o fracasso? É certamente desejável que estes dois países se tornem democracias estáveis. Mas isto não pode ser uma bitola para medir o êxito e o fracasso em termos duma "estratégia de saída". Evitar que o Afeganistão se desintegre novamente tornando-se um refúgio do terrorismo transnacional é um objectivo mais limitado e realista. Os recursos são limitados e a disposição para suportar custos também - mesmo nos Estados Unidos. A retórica oficial e a política real não condizem. Os actos são mais importantes que as palavras quando se trata de avaliar os interesses vitais. A poucos membros da OTAN agrada a ideia de enfrentar os senhores da guerra em todo o país, que provavelmente é o que você esperaria das forças europeias da Aliança.

Tem razão quando diz que a sua visão exige "mudanças espectaculares" do lado europeu, incluindo orçamentos militares mais elevados e uma perspectiva estratégica diferente. Contudo estas mudanças não são mais prováveis que a necessária mudança do lado dos EUA que se esqueceu de mencionar: uma disposição para tratar os países europeus um pouco melhor do que parceiros inferiores cuja única opção é saltar para o comboio dos EUA ou arriscar-se a uma confrontação com o parceiro dominante. As razões por que os Estados Unidos estão ansiosos por partilhar o encargo de ser uma potência do Médio Oriente são claras. Mas a partilha do encargo com os Aliados envolve a partilha da tomada de decisões. Mas, embora o tom da política externa dos EUA possa tornar-se mais razoável com um presidente diferente, a aceitação duma maior influência europeia no Médio Oriente não será fácil para Washington independentemente de quem estiver na Casa Branca.

Os ataques preventivos "a instalações nucleares que não respeitem as normas internacionais de não proliferação" poderão tornar-se necessários em certos casos. Mas estaria algum presidente dos EUA disposto a tentar obter consenso no seio da OTAN para uma tal política? A legitimação pela OTAN duma tal política é sem dúvida um importante estímulo político para iniciar negociações tão delicadas, mas o custo de tentar obter acordo sobre uma acção, digamos, contra o Irão, poderá mostrar-se proibitivamente elevado.

Se os Estados Unidos tiverem êxito no combate à insurreição no Iraque e se a situação política aí começar a melhorar e a evoluir num sentido positivo, o envolvimento da OTAN seria politicamente aliciante mas de valor militar relativamente modesto. Contudo, se a situação não melhorar, a campanha de guerrilha adquirir dinamismo e o Iraque se desintegrar numa guerra civil, quaisquer forças da OTAN aí destacadas poderão ter que enfrentar missões de combate. Não é um cenário atraente, dada a opinião pública na maior parte dos países membros e seria, certamente, motivo para discórdia transatlântica.

O Grande Médio Oriente está a surgir como a região focal da política de coordenação Europa-EUA. Mas as iniciativas relativas ao Grande Médio Oriente não levarão a lado nenhum a não ser que a administração americana se volte a envolver no conflito israelo-palestiniano.

Promover a modernização económica e a liberalização política poderá a longo prazo contribuir para eliminar a fonte de novos terroristas. Contudo, durante este processo devemos esperar muita instabilidade e isto pode representar ainda maiores desafios e dilemas para o Ocidente. Se a OTAN puder contribuir para a gestão destes desafios, deverá ser usada para este fim. Se, por exemplo, as parcerias militares análogas à Parceria para a Paz puderem ajudar a tornar os oficiais das forças armadas do Médio Oriente mais receptivos às normas democráticas, tais iniciativas favorecerão, sem dúvida, a abordagem estratégica geral.

Mas não se pode esperar que a OTAN como instituição de segurança com um número crescente de membros se torne um fórum central para a coordenação política transatlântica sobre o Grande Médio Oriente. Tal coordenação seria certamente mais fácil no quadro de agrupamentos funcionais de menor dimensão envolvendo a União Europeia como protagonista importante.

Seu,
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Peter


Caro Peter,

Com imagens da horrível carnificina de Madrid ainda no meu espírito, é difícil levar a sério a ideia de que "a gestão das relações entre as grandes potências" é mais importante do que enfrentar o novo terrorismo de assassínio em massa, bem como a horrível perspectiva de os terroristas virem a dispor de armas de destruição maciça. Um dos desafios parece abstracto, académico; o outro está a rebentar na nossa cara.

Em qualquer caso, os Estados Unidos têm estado a gerir o seu relacionamento de superpotência com a China desde a Guerra da Coreia e continuarão a fazê-lo mesmo quando enfrentamos o terrorismo e o fanatismo da jihad. Não acredito que o crescente aumento do peso geopolítico da China represente uma ameaça potencial para a América ou a Europa. A ameaça, se existe, resulta da ideologia e ambições dos dirigentes da China, e da tendência habitual dos regimes despóticos para invocar "ameaças" externas para justificar o seu regime repressivo. Se as forças liberalizantes que agora estão a transformar a China não forem reprimidas e continuarem a passar do domínio económico para o político, as relações sino-americanas provavelmente melhorarão em vez de piorar. É por isso que, presentemente, estou mais preocupado com um regresso da Rússia ao autoritarismo do que com a perspectiva duma guerra com a China.

Mas voltemos ao ponto crucial do nosso desacordo. Você diz que a OTAN é importante demais para "a sua existência ser posta em risco por um envolvimento excessivamente ambicioso e dispendioso no Médio Oriente". Importante para quê? A OTAN actualmente existe simplesmente porque existe, ou tem um objectivo estratégico? Se a Aliança enfrenta actualmente desafios de tão grande importância que não pode afectar mais recursos à estabilização do Afeganistão, gostaria de saber quais são. Sem uma verdadeira missão para enfrentar ameaças reais, a OTAN corre o risco de se tornar o equivalente institucional de um “consolo”, tal como as crianças costumam ter - algo que conforta mas que não evita realmente os perigos.

A OTAN poderia dar garantias de segurança para facilitar uma solução negociada entre dois Estados para o conflito israelo-palestiniano

Por acaso, e ao contrário do que sugere, eu não disse que a missão da OTAN no Afeganistão deveria ser instaurar um governo democrático. Em vez disso, é ajudar o governo central a pacificar o país para que não caia no caos e, mais uma vez, se torne um abrigo para os terroristas. Efectivamente, isto exigirá provavelmente ter que enfrentar alguns senhores da guerra, uma ideia que você diz que a poucos países europeus agradaria. E, contudo, isso precisa de ser feito para que a missão seja cumprida. Não há perigo de excesso neste caso. A Europa próspera tem, obviamente, amplos recursos humanos e materiais para ajudar o governo dum país empobrecido e atrasado a estender o seu controlo para além de Cabul e, como você pretende, para ajudar as forças dos EUA a destruir o que resta dos Taliban e da Al Qaeda ao longo da fronteira com o Paquistão. Trata-se duma questão de vontade, não de recursos.

Por fim, tem razão quando diz que um novo projecto transatlântico visando modernizar o Grande Médio Oriente exigirá uma nova atitude dos Estados Unidos bem como da Europa. Mas os europeus não podem ter tudo. Se não querem ser tratados pelos Estados Unidos como "parceiros inferiores", têm que suportar um encargo de parceiro importante. Isto significa gastar mais com a defesa, desenvolver as novas capacidades em matéria de guerra de alta tecnologia e, provavelmente o mais difícil, estar disposto a empregar a força quando os nossos interesses de segurança mútuos o exijam. Reconheço que se trata de grandes passos politicamente difíceis. Muitos dirigentes europeus aparentemente não estão convencidos de que as ameaças que surgem do Grande Médio Oriente justificam que sejam dados. Talvez tenham razão, mas o que aconteceu em Madrid argumenta poderosamente contra a complacência de recursos.

Seu,
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Will


Caro Will,

Deixemos de lado a questão de saber se a gestão pacífica das relações entre grandes potências e o evitar conflitos catastróficos entre elas continua a ser um desafio tão grande neste século como foi no século passado. Apenas gostaria de poder partilhar o seu optimismo liberal acerca do fim da rivalidade entre grandes potências. O que contesto é o pressuposto emergente no debate da política externa dos EUA de que o Médio Oriente se tornará a região de conflitos predominante deste século - não o facto de estarmos confrontados com uma ameaça terrorista transnacional mortal de proporções históricas sem precedente.

Esta ameaça transnacional tem origem no Médio Oriente, mas já esteve presente durante algum tempo nas sociedades europeias e não pode ser enfrentada primariamente por meios militares. Em consequência, a OTAN terá uma importância limitada nesta luta. Mas, no que diz respeito à maior parte dos europeus, isto não significa que a Aliança se tornará irrelevante a não ser que se envolva no Médio Oriente. Você parece ter como certo que os dilemas e problemas tradicionais da segurança europeia nunca ressurgirão, embora, para ser justo, você manifeste alguma preocupação acerca da evolução na Rússia. Talvez não ressurjam. Mas não podemos ter a certeza. A OTAN não é um "consolo", como os das crianças, mas uma apólice de seguro judiciosa. Certos riscos podem não ser especialmente prováveis e, portanto, parecerem, por outras palavras, "académicos". Mas é certamente tanto prudente como sensato segurarmo-nos contra eles, desde que os prémios não seja demasiado elevados.

As iniciativas relativas ao Grande Médio Oriente não levarão a lado nenhum a não ser que a administração americana se volte a envolver no conflito israelo-palestiniano

Além do papel estrutural que a Aliança desempenha garantindo a segurança europeia, em consequência de hábitos enraizados resultantes de anos de cooperação militar, a "nova" OTAN é de muitas formas um prestador de serviços de segurança. Como tal, também pode reunir um conjunto de forças para coligações de interessados. Se, portanto, a OTAN pode dar uma contribuição útil para a resolução ou gestão de problemas específicos no Médio Oriente, deverá evidentemente ser utilizada. Mas o planeamento eventual de missões militares politicamente delicadas na região - podem facilmente imaginar-se cenários de crise envolvendo países "amigáveis" como a Arábia Saudita e/ou o Paquistão - é uma coisa. Aumentar a importância do Grande Médio Oriente para a Aliança até se tornar a nova frente principal e razão de ser da OTAN é outra.

No caso do Afeganistão, ninguém nega o facto de que nenhum membro da OTAN - nem mesmo os Estados Unidos - está disposto a atribuir os recursos humanos e materiais necessários para executar a tarefa. Apelos bem intencionados para realizações ambiciosas, que ignorem as dificuldades políticas e as diferentes perspectivas estratégicas, estão condenados a acabar em decepção e exaspero.

Contudo, penso que estamos de acordo em que no quadro da OTAN e, muito provavelmente, noutros cenários, é urgentemente necessário um diálogo transatlântico sustentado acerca das prioridades estratégicas e das possíveis políticas comuns relativas ao Grande Médio Oriente.

Seu,
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Peter


Caro Peter,

Não tenho como certo o fim da rivalidade entre as grandes potências. Não é inconcebível que uma nova tendência de nacionalismo pan-eslavo possa surgir na Rússia, incitando talvez a uma tentativa agressiva de Moscovo de absorção de partes do antigo império soviético. Este é o pior cenário, mas com o liberalismo agora aparentemente em retrocesso na Rússia, não pode ser inteiramente posto de lado e, por isso, é de preservar a OTAN como uma apólice de seguro.

Contudo, o que é curioso é o argumento de que estes perigos puramente hipotéticos deverão ter precedência sobre as ameaças inequívocas que enfrentamos aqui e agora. A OTAN é uma aliança militar formada para proteger os seus membros contra ataques armados e a intimidação. Três membros da OTAN foram agora atacados por uma rede terrorista global radicada no Médio Oriente e no extremismo islâmico. Ou a OTAN desenvolve os planos, capacidades e determinação para combater esta ameaça eficazmente ou desiste de qualquer pretensão de continuar a ser um verdadeiro pacto de defesa mútua.

A noção de que a OTAN se poderia tornar um fundo comum do qual os membros poderiam retirar meios militares ou formar "coligações de interessados" parece fantasista dada a ausência dum consenso político quanto aos objectivos para que aqueles meios deveriam ser usados. É mais provável que se torne um fórum de segurança transatlântico ou, talvez, um quadro predominantemente europeu para a integração em matéria de segurança. Em qualquer dos casos, isso significaria o fim da OTAN como a conhecemos - a poderosa parceria americana-europeia, baseada numa missão clara e sem ambiguidade, que foi o esteio da bem sucedida estratégia do Ocidente para a Guerra Fria e da espectacular expansão da democracia liberal.

Estamos de acordo em que o terrorismo não pode ser derrotado somente por meios militares. Mas algumas tarefas - negar abrigos seguros aos terroristas em Estados enfraquecidos ou malfeitores, detectar e destruir células terroristas onde quer que possam estar a planear causar-nos danos, manter a paz e a reconstrução do país no Kosovo, Afeganistão e Iraque, impedir o transporte de material nuclear e de outros materiais perigosos - envolvem inevitavelmente a força militar. O Afeganistão constitui um teste crucial. Você afirma que nem os Estados Unidos nem os membros europeus da OTAN estão dispostos a atribuir os recursos necessários para executar a tarefa. Deveremos então retirar e esperar que as coisas corram bem? Osama Ben Laden tem razão quando fala da indecisão do Ocidente democrático?

66. Sem uma verdadeira missão para enfrentar ameaças reais, a OTAN corre o risco de se tornar o equivalente institucional de um "consolo", tal como as crianças costumam ter

Subjacentes aos actuais debates transatlânticos sobre o terrorismo, o Iraque e a transformação do Médio Oriente estão receios recíprocos, na maior parte dos casos inconfessados. Os europeus receiam que a América os arraste para lutas desnecessárias; os americanos receiam que os europeus não tenham coragem para as lutas necessárias. Concordo consigo que um diálogo transatlântico sincero é urgentemente necessário para desfazer estes dois receios e criar uma resposta comum mais eficaz para os novos desafios que enfrentamos.

Seu,
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Will


Caro Will

Você refere correctamente os receios subjacentes ao debate transatlântico. Parecem ser a actual manifestação do que os académicos chamaram o "dilema de segurança da aliança". Por um lado, os países que pertencem a uma aliança receiam que os seus aliados possam abandoná-los quando deles tenham necessidade. Por outro lado, eles próprios têm receio de serem envolvidos em conflitos que não considerem ser do seu interesse vital. E a Guerra do Iraque susitou algum receio de envolvimento na Europa - e criou sérias dúvidas acerca da sensatez estratégica desta administração americana e das suas prioridades numa altura em que o terrorismo global islâmico é, sem qualquer dúvida, o perigo claro e actual.

De novo, não acredito que a "velha" OTAN baseada numa missão fundamental geograficamente centrada possa ser ressuscitada. Depois dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, a OTAN invocou o Artigo 5° do Tratado do Atlântico Norte, contudo nenhum país membro interpretou esta acção como uma obrigação de prestar apoio militar incondicional. Além disso, como se lembrará, Washington preferiu claramente formar uma coligação de interessados para a sua guerra contra o terrorismo em vez de correr o risco de se ver enredada no processo de tomada de decisões da Aliança.

A OTAN não é um "consolo", como os das crianças, mas uma apólice de seguro judiciosa.

Não preconizei e não preconizo uma retirada da OTAN do Afeganistão. Contudo, não vejo como pode ser resolvida a dissonância entre a retórica ambiciosa e a política real. E não consegui detectar nenhum indício de que a estabilização do Afeganistão é de alta prioridade para Washington. Em consequência, teria cuidado quanto à medida em que pomos em causa a credibilidade e o prestígio da OTAN nesta operação. Há mais de uma década, as Nações Unidas foram fortemente (e erradamente) criticadas, e subsequentemente responsabilizadas nos Estados Unidos, pelo fracasso da intervenção da comunidade internacional na Somália. Isto contribuiu para desgastar o apoio às Nações Unidas nos Estados Unidos. No interesse da OTAN e do relacionamento transatlântico espero que a Aliança seja capaz de evitar um caso semelhante no Afeganistão.

Seu,
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Peter